segunda-feira, fevereiro 20, 2006

A urgência da preservação da identidade do centro histórico de Coimbra


A salvaguarda e recuperação do património edificado – de que os centros históricos são parte integrante – constitui um dever indeclinável das entidades competentes e da população que nele habita e visita. Na realidade, o que está em causa é a preservação de um vasto acervo fundador da nossa identidade e da nossa memória colectiva, materializado na diversificação de um paisagem que constitui o espaço de afirmação da história e da cultura portuguesas.
Até há bem pouco ano Coimbra não tinha uma política eficaz e coerente de preservação do seu vasto património arquitectónico. As acções que foram sendo implementadas foram quase sempre pontuais e avulsas e nem sempre direccionada das melhor forma.
Coimbra rebentou as muralhas, cresceu, evoluiu de tal forma que as preocupações centrais passaram a ser orientadas para as novas áreas que se foram instalando ao redor do centro histórico que ia, paralelamente perdendo importância porque deixado ao esquecimento.
Contudo, hoje percebe-se que tais esquecimentos provocaram uma profunda descaracterização do centro histórico que outrora possuía um papel tão importante, ou melhor, detinha o papel principal da urbe.
A procura de maiores e melhores habitações provocaram um progressivo despovoamento, que hoje é sentido com maior intensidade à noite. Por outro lado, o envelhecimento que caracteriza não só o centro histórico, mas também toda a cidade, ainda que seja no primeiro onde ele mais se acentua, provocaram uma perda de vitalidade com consequências em todos os sectores económicos.
A degradação do parque habitacional, do património arquitectónico, das infra-estruturas e equipamentos, e até do próprio espaço urbano, tornaram este local num espaço onde apenas os resistentes e os menos enriquecidos economicamente persistem em viver.
Para que esta situação não se torne irreversível é urgente definir estratégias segundo uma política global de reabilitação urbana, que concilie identidade e desenvolvimento, função residencial e serviços, respeito pelas transformações sociais e culturais e abertura à inovação, às transformações sociais e culturais do nosso tempo que são inevitáveis.
O centro histórico de Coimbra é um lugar cheio de memória, com características únicas que pede há muito, e com legitimidade, uma política de recuperação eficaz e coerente.
Assim sendo, talvez a elaboração da candidatura da Universidade de Coimbra e sua área "tampão”que está a ser elaborada pela Universidade de Coimbra em parceria com o IPPAR, CMC e outras entidades, possa contribuir para dar a Coimbra e ao seu centro histórico, o lugar de destaque que ela tão bem merece.
Contudo, é importante que não esquecer que nenhum centro histórico é imutável e, por isso, o de Coimbra, também não o é. Assim, ter-se-á que regulamentar o modo de intervir no seu tecido e nos imóveis, para que não se ponha em causa o que, no momento actual, se considera fundamental preservar para o futuro, mas sem esquecer que, em comunhão com o que é antigo, será necessário afirmar o tempo presente, o que exige de todos os seus agentes um esforço enorme na fundamentação de quaisquer propostas para estas áreas.
Sensibilizar, antes de mais os seus habitantes para a importância do centro histórico na afirmação de cada uma das identidades constitui o aspecto mais importante, mas não único, para que, a médio prazo, o centro histórico de Coimbra recupere as suas expressões culturais tão importantes para conformar as dinâmicas da mudança.
Talvez, daqui a poucos anos, com o empenho de cada cidadão o centro histórico possa finalmente fazer jus da sua imagem, da sua memória, e apresentar ao mundo o que tem de melhor....

Saudações Geográficas
Liliana Azevedo

10 comentários:

Anónimo disse...

Primeiro quero felicitar-vos por este blog. Ainda que tenha poucos post acredito que ele tem perans para andar. Sou tal como vós um geógrafo e támbém me interesso pelo nosso património, seja ele de que âmbito for, e talvez seja isso que é importante alertar, ou seja, património não é só igrejas e dinossauros. O nosso país está cheio dele, riquissimo,vastissimo.
Em relação ao centro histórico de Coimbra, de facto, tenho notado alguma evolução. Estudei em Coimbra e passo aí de vez em qaundo e tenho notado que muitas obras estão em curso.. e isso é bom.. porque acho que Coimbra tem todas as potencialidades para ser uma cidade património mundial, pelo parte parte dela. No entanto, também eu acho que é necessário criar uma politica de consciencialização da nossa identidade, só assim será oportuno continuar a levar a bom porto a recuperação dos centros históricos portugueses.
bem hajam...
Carlos Amaral

Geografos disse...

Caro colega Carlos Amaral!
É com muito gosto que o recebemos neste ainda recente blog. Agradecemos o interesse manifestado associado às suas palavras escritas. Porque este blog também pretende ser um sítio de discussão, seria sem dúvida pertinente e enriqueçedor que nos falasse um pouco mais da política de consciencialização referida como sendo necessária. Que política poderia ser essa? De que forma se actuaria? Conheçe algum caso português de franco sucesso?

Os maiores cumprimentos.

Anónimo disse...

Parabéns pelo vosso blog e pela importância que estão a dar ao nosso patrimonio nacional. É com muito agrado que vejo ainda pessoas preocupadas com o que de importante existe nas nossas cidades "o nosso património arquitectónico". Continuem com força e determinação.
Rui Mota.

Rui Costa, arquitecto disse...

o Blog é interessante e a preocupação com o Centro Histórico de Coimbra também. Mas a frase "até há bem pouco tempo" presume que alguma coisa está a ser feita desde há algum tempo para cá. E está. Mas mal feita. Salva-se a intervenção da Universidade e os esforços que tem movido, porque aquilo que a câmara tem feito é pouco e tendencialmente mau. Talvez se mais artigos forem publicados alguém comece a dar atenção ao assunto e a procurar responsáveis técnicos efectivamente qualificados para preservar essa área urbana.
Parabéns pela iniciativa.

Geografos disse...

Boa tarde Rui Costa. Antes de mais obrigado pela visita e pelo post. Contudo, permita-me que entre um tanto em desacordo consigo lhe faça apenas uma pergunta. Que intervenções tem feito a Universidade de Coimbra para a recuperação do Centro Histórico?? Sinceramente não estou a ver nehuma. Se me está a falar da Candidatura da Universidade, sim é um facto que está a fazer isso, mas essa candidatura não é apenas exclusivo da UC, parte da colaboração de diversas entidades entre os quais a Câmara de Coimbra. Depois, e era aí que queria chegar quando escrevi este post, considero que por mais programas de reabilitação que se façam, sejam elas por parte da Câmara ou da Universidade, se os sesu habitantes não se identificarem com o lugar onde vivem tudo perde o valor, tudo perde o efeito. E reabilitação, revitalização não passa exclusivamente por recuperar edificios, vai muito além disso. E sinceramente e infelizmente a Universidade ainda tem muito peso na cidade de Coimbra, e quase sempre faz o que quer e nem sempre da melhor forma. De qualquer maneira, penso que se devem unir esforços no sentido de recuperar o centro histórico.
Bem haja.
Liliana Azevedo

Rui Costa, arqº disse...

No outro dia voltei a passar por aqui. Escrevi qualquer coisa de resposta ao seu comentário e, francamente, não sei se o comentário não apareceu por opção dos autores do blog ou se foi alguma coisa que correu mal no processo de colocar o comentário. Hoje voltei, porque acho o blog interessante.
Relativamente ao assunto deste post, o que eu queria dizer quanto à universidade, era o que ó próprio post diz: a universiadade é que está a ser o motor da candidatura. De qualquer maneira, a universidade tem feito muito boas intervenções, como o é o caso do auditório de Direito. Mas diga-se também em abono da verdade que não é à universidade que compete recuperar o centro histórico, como a Liliana sugere. Quando me refiro às intervenções da câmara serem sofríveis, penso em exemplos como o daquele edifício azul do Quebra Costas ou um outros que está em recuperação perto do Sousa Bastos e cuja traça foi alterada.
Mas considero o seu empolgamento muito bom. Eu era assim quando há uns anos comecei a trabalhar. Mas se o motivo do empolgamento for, por exemplo, o facto de ter alguém conhecido a trabalhar lá, então está numa posição de responsabilidade para fazer sugestões e levar boas influências / ideias novas a quem tem possibilidade de actuar. Porque isto não se trata de políticos e política , mas sim de saber intervir tecnicamente.
Mais uma vez, parabéns. É bom ter diálogos animados!

Geografos disse...

Boa tarde Rui Costa!

Antes de mais quero dizer-lhe que não recebemos nenhum comentário seu além dos publicados. Todos os comentários feitos a este blog são sempre publicados. Afinal de contas ele foi criado com o intuito de todos aqueles que o visitem possam dar a sua opinião acerca dos assuntos aqui tratados, mesmo que a mesma não esteja de acordo com a nossa. Todas elas são publicadas com todo o gosto. Depois quero agradecer o facto de ter voltado. É sempre bom saber que afinal de contas este blog tem alguma visibilidade.
Relativamente ao seu comentário, sim é verdade que a universidade foi o motor, mas sem dúvida que se não existisse outras entidades envolvidas esta candidatura seria quase ou mesmo impossível.
Nunca disse que é à universidade que cabe a recuperação, mas também não é a ela que cabe a destruição. Basta ver pelas lindas “pinturas” que fez em todos os edifícios. É obvio que as pinturas que estavam eram inadmissíveis, mas fazer o que fez? Sinceramente! A universidade fez o auditório. E que mais fez ela por um lugar que é maioritariamente ocupado por ela?
Por outro lado, não estou a defender ou a condenar nenhuma intervenção da Câmara Municipal seja porque motivo for. Sim é um facto que trabalho lá e conheço os entraves que existem, e não passam unicamente por questões burocráticas e/ou politicas. Antes de ser funcionária da Câmara Municipal sou moradora no centro histórico, toda a minha vida vivi aqui, conheço bem a realidade, sei que não é fácil reabilitar o edificado da forma como todos gostaríamos e com a rapidez desejada.
A questão do edifício azul, sinceramente não me parece que esteja mal, pelo contrário, até achei que ficou bem. Mas isso é uma questão de gosto pessoal, nada mais.
Quanto ao edifício em frente ao Sousa Bastos, talvez saiba que aquele edifício estava aos anos em ruínas, até que a fachada acabou por cair por completo, e assim torna-se difícil manter as fachadas. Mas com isto não quero dizer que gosto da forma como o edifico está neste momento.
Sou uma defensora da recuperação do património, da manutenção da identidade cultural, mas a história faz-se também a partir disso mesmo. Senão vejamos, no Estado Novo a Alta foi completamente destruída, os meus pais lembram-se dela, e toda a gente criticou o facto de um pedaço da história se ter perdido. Hoje critica-se o facto de algumas recuperações não estarem de acordo com a traça antiga, mas a história é assim mesmo. Manter aquilo que podermos, mas dar nova vida ao que é quase impossível recuperar. Daqui a uns anos esse edifício em frente ao Sousa Bastos e outros que possam vir a ser reabilitados da mesma maneira farão parte da história da cidade de Coimbra.
Precisamos de ter lugares de memória, mantê-los, criá-los ou recriá-los, e isso não passa, como já disse, unicamente por reabilitar o edificado. Continuo a achar que sensibilizar os seus habitantes para a importância que o centro histórico tem na afirmação da identidade constitui o aspecto mais importante, para que qualquer projecto seja claramente eficaz.
Tente perguntar aos habitantes do centro histórico o que é para eles o centro histórico de Coimbra… verá que lhe darão respostas surpreendentes… mas mais surpreendentes lhe dariam se fizesse a mesma pergunta à cinco anos atrás. Eu fiz o teste e acredite que mesmo antes de trabalhar onde trabalho denotei que o Gabinete para o Centro Histórico está a esforçar-se por sensibilizar a população para essa afirmação.
Bem-haja e continue a visitar-nos
Liliana Azevedo

Rui Costa disse...

Não lhe tinha dito ainda, mas também tenho família com casa no centro histórico. O que me ajuda a conhecer bem a zona. Concordo completamente com a parte do trabalho com aa população. Lembro-me até de um inquérito que foi feito há uns anos, em 2001 ou 2002 e que foi muito bem conduzido, segundo me disseram a família e outras pessoas que lá conheço. Isto está de acordo com as referências temporais da sua resposta. Nessa altura fez-se alguma coisa com a população.
Bem, e se trabalha lá, então "mãos à obra!" Vai ter muito que fazer! Pode ser que agora estas áreas de intervenção deixem de ser um nicho para engenheiros civis e passem a ser conduzidas por profissionais verdadeiramente vocacionados e sensíveis para estes trabalhos.

Filipa Queirós disse...

Boa tarde! Antes de mais gostaria de vos felicitar pelo blog. Sou estudante em Coimbra e, enquanto pesquisava para um trabalho académico sobre reabilitação do centro histórico de Coimbra, encontrei o vosso blog.
Sou estudante de Sociologia na Faculdade de Economia e tenho este trabalho para elaborar até finais de Dezembro.
Pelo que me apercebi, trabalha na camara. Já fui ao gabinete que trata da reabilitação do centro histórico, ao pé dos arcos de Almedina, e falei com uma geógrafa. Fui informada que o site da Câmara dispõe de todo um vasto conjunto de informações que já tinha a preocupação de explorar. No entanto, gostaria de vos pedir uma opinião acerca de onde poderei encontrar mais material, mais fontes de informação para o enriquecimento do meu trabalho.
Antes de mais peço o incómodo, pois estou a intervir com algo não ligado, de forma directa, ao post publicado.
Como estudante do primeiro ano, penso que quanto mais oportunidade tiver de enriquecer o meu conhecimento, mais oportunidades terei futuramente de enriquecer e elaborar de melhor forma qualquer trabalho que leve em frente.
Despeço-me com a esperança de obter uma resposta de vossa parte.
Mais uma vez, obrigado pelo tempo dispendido.

Anónimo disse...

Obrigado por coisas boas