segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Será que merecemos o Jurássico que temos, se são os outros que o estudam, o divulgam e o protagonizam?

Em Portugal, a legislação em vigor para a protecção da natureza é o Decreto-lei 19/93 que estabelece as normas relativas à Rede Nacional de Áreas Protegidas.
Neste decreto existem seis figuras legislativas de protecção, a saber: Parque Natural, Parque Nacional, Reserva Natural, Paisagem Protegida, Sitio de Interesse Biológico e Monumento Natural.
Não obstante, quando falamos na aplicabilidade que estas têm relativamente ao património geológico, verificamos que existem muitas lacunas. De facto, para proteger o património geológico português resta-nos apenas a figura de Monumento Natural e, mesmo assim, revela-se pouco explicita relativamente aos objectos geológicos, já que a única referência directa que o mesmo faz em relação aos valores geológicos é o artigo que se refere aos objectivos.
Posto isto, e ainda que exista uma figura legal que pode classificar os objectos geológicos, verificamos que o seu valor e aplicabilidade não produzem o efeito desejado.
Por outro lado, o processo administrativo da classificação é demasiado longo e ainda existe um desinteresse na protecção dos mesmos objectos geológicos devido à falta de informação.
Actualmente é sustentada a ideia errada de que os valores geológicos se referem única e exclusivamente às pegadas dos dinossauros, contudo, Portugal apresenta uma elevada diversidade que não se limita aos icnofósseis ou às formações cársicas.
Dentro dos objectos geológicos que não estão classificados, temos as falésias do Cabo Mondego, situadas a norte da Figueira da Foz.
Aqui é possível observar um registo completo de vestígios do Jurássico. O estrato que corresponde ao Bajociano (subdivisão do Jurássico) está de tal forma completo que em 1996 a União Internacional de Ciências Geológicas o classificou como “Estratotipo Limite”, ou seja, o único local no mundo que melhor representa o período da terra entre 171 e 167 milhões de anos.
Este geomonumento por excelência está também classificado como Biótipo Corine (Património Natural de Interesse para a Conservação) e declarada pela União Geológica Mundial como “ Património de Interesse Global”, contudo em Portugal só há bem pouco tempo se propôs a sua classificação como Património de Interesse Municipal. E enquanto isso, enquanto que aqueles que tem a decisão, e que revelam uma enorme falta de cultura científica, não tomam medidas, o cabo Mondego é diariamente delapidado por interesses economicistas, do cimento….
Porque já não temos lugares de memória precisamos de criar lugares de memória. Não se trata de avivar as memórias, o importante é criar ou recriar as memórias daquilo que terá sido a terra e, o Cabo Mondego representa em toda a sua singularidade, raridade e representatividade tudo o que foi a terra durante 40 milhões de anos.
Por outro lado, os patrimónios, e neste caso, o Cabo Mondego, desde que assumido como tal, possuem um função social muito importante. Essa função é de fazer existir uma entidade colectiva, sempre abstracta, tornando-o visível por exposição pública dos seus importantes recursos geológicos.
Concluindo, o Cabo Mondego não encerra “apenas” um riquíssimo património geológico, ele também encerra a história da vida da terra em que vivemos e isso é já de si extremamente importante. Assim sendo, é urgente que os nossos políticos se consciencializem das nossas potencialidades e que lhe dêem a classificação que ele merece, e isso não é para amanhã, devia ter sido ontem!

Saudações Geográficas
Liliana Azevedo

6 comentários:

Anónimo disse...

Infelizmente este é mais um exemplo da forma como se governa em Portugal. Mas o maior problema está na falta de informação que a população em geral tem. A maioria das pessoas não procuram saber se o património do seu País está bem entregue.... nem procuram saber se ele existe! Este tipo de problema não vende jornais ou aumenta audiências, e continuamos sempre a perder mais um pouco da nossa História.... é a vida! Devagar se mudam as vontades. E por isso não merecemos todo este património que nos foi confiado. Não cuidamos dele e só quando alguém de fora se mostra interessado é que nos apercebemos que realmente é importante...o típico da nossa cultura. Penso que estamos a melhorar mas é preciso fazer mais...desde já obrigado por me ajudarem a conhecer melhor uma parte da História que desconhecia no nosso País e por partilharem o vosso conhecimento com um leigo geográfico...já mudaram mais um bocadinho...continuem! Quero descobrir mais. Rui Guilherme

Humberto Coelho disse...

Uma muito interessante reflexão mesmo para um leigo na area, como é o meu caso.

Estás de parabéns, Liliana.

Mark Pereira disse...

O artigo está muito bem escrito. Mistura um apaixonado conhecimento do assunto com uma defesa contagiante pelo que é nosso. Também eu sou um leigo no assunto. Concordo com a defesa do património geológico português. Não concordo é com a insistência da alguma ciência pelo modelo evolutivo para explicar todas as coisas. A evolução é uma teoria muito vaga e precisa de grandes intervalos de tempo para poder ter alguns resquícios de razoabilidade. Mando aqui um link interessante. É um documentário feito por um cientista que defende o modelo criativo. Eu sei que a dobragem em português do brasil fica um pouco irritante (eu também prefiro as legendas), mesmo assim vale a pena. Nem que seja para ouvirmos um "outro lado" tão arredado do mundo académico em Portugal mas a gerar muitas discussões lá para fora. Aqui vai,

http://www.christiananswers.net/portuguese/creation/aqoo/home.html

Liliana (os amigos dos meus amigos são meus amigos também), muito obrigado pelo teu post. Faz-me bem ler coisas escritas com tão notável paixão.

FiJoReL disse...

Parabens por este blog... está adicionado aos meus favoritos.

Geografos disse...

Agradeço em meu nome e da minha colega e grande amiga Liliana as vossas visitas ao nosso blog. São sempre bem vindos os vossos comentários, ilações e a participação neste espaço de discussões geográficas e, por isso, gerais.

Luís

Rui Silveira disse...

Eu sendo um leigo na matéria nao tenho muito mais a acrescentar, sem ser o facto de este Blog estar bem estruturado e de contribuir para o enriquecimento dos que por aqui passam. Um bem aja...